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“Inception” vs “The Social Network”


Tem ano que o cinema é realmente fraco! Em 2008, por exemplo, saíram muitos filmes bons, blockbusters bacanas, mas nenhum filme daqueles que entra pra história, marca uma geração, muda tudo em Hollywood! Talvez “The Dark Knight”, que já abocanhou mais de 1 bilhão de dólares nas bilheterias pelo mundo. Já 2009 foi o oposto: “Avatar” e uma série de grandes outros sucessos destruidores como o segundo “Transformers”, o terceiro “Era do Gelo” e o sexto Harry Potter, estão entre os 25 filmes de melhor bilheteria de todos os tempos.

Mas esse ano a coisa realmente ficou excelente para os grandes produtores do cinema americano. Se não bastasse a moda 3D, grandes histórias e enredos fantásticos, mesmo os baseados em histórias reais, tem transformado a briga pelo título de melhor filme do ano, no mínimo, emocionante.

“Toy Story 3” e a “Alice” de Tim Burton já estão entre os 10 mais lucrativos de todos os tempos. O quarto “Shrek”, o terceiro filme da saga “Crepúsculo” e o segundo “Iron Man” também já tiveram arrecadações de respeito. Mas os grandes filmes mesmo de 2010 são, sem dúvida, esses dois do título acima. Os mais fortes candidatos ao Oscar no próximo ano, se não houverem marmeladas daquelas…

Inception (2010)

 

 

 

Inception, com Leonardo DiCaprio
"Inception"

 

 

 

 

Com o título “A Origem”1, no Brasil, a ficção escrita e dirigida por Christopher Nolan invade o mundo dos sonhos de uma forma nunca mencionada antes. O elenco é encabeçado por Leonardo Di Caprio e conta com o figurão Michael Caine, além dos excelentes Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page e Ken Watanabe que, mesmo como coadjuvantes são super bem aproveitados na trama.

Com mais de 800 milhões de dólares arrecadados nos poucos mais de 5 meses em cartaz, o sci-fi action tem no seu enredo confuso o maior apelo. A trama envolve viagens pelo mundo dos sonhos, roubos e inserções de ideias, disputas comerciais a nível internacional e, claro, um caso mal resolvido de romance.

Óbvio que o fato do protagonista ser Di Caprio ajuda bastante. Confesso que eu tinha um pé atrás com o rapaz desde Titanic (e nessa época eu já tinha visto uns 4 ou 5 filmes com ele sempre no mesmo nível), mas de filmes como “Os Infiltrados” pra cá, tenho gostado cada vez mais da atuação dele. Posso dizer tranquilo que o cara é dos meus atores favoritos (talvez junto com Russel Crown). Pra filmes de ação desse gênero (inteligentes), é o melhor.

O problema foi que a mídia falou tanto desse filme, meus amigos e mais um monte de críticas em blogs por aí, que acabei enrolando muito pra decidir ir ver. E me arrependi disso. Valeu cada segundo parado diante da tela curtindo a trama maravilhosamente entrelaçada de Nolan. Um filmaço que, certamente, entra naquele rol que citei antes.

The Social Network (2010)

 

 

 

The Social Network
The Social Network

 

 

 

 

Narrando a história da criação do Facebook, um dos maiores casos de sucesso na Era Digital, o filme acompanha o estudante Mark Zuckerberg e seus sócios/amigos naquilo que geralmente é associado ao “sonho americano”: uma grande invenção, fama, rios de dinheiro, sexo e drogas e os problemas na justiça.

Lançado em outubro desse ano, demorou um pouco pras cópias chegarem às salas brasileiras. Por aqui acabou ganhando o nome fiel “A Rede Social”, um caso raro. Mas o sucesso foi instantâneo, talvez por que a moda Facebook está pegando agora, aqui pelas terras tupiniquins. Lá fora o sucesso não foi assim tão grande. A arrecadação custou a chegar nos 100 milhões de dólares, pouca coisa mesmo pra um filme de 50 milhões. Mas uma história real, bem adaptada, que mostra o que acontece por trás dos panos e os verdadeiros problemas de caras com mentes excepcionais.

O estilo do filme me lembrou muito o “Pirates of Silicon Valley”, aquele outro que contava a história de Bill Gates e Steve Jobs e seus impérios construídos igualmente na Califórnia. Talvez não seja exatamente um filme de entrar pra história, de arrecadar milhares de dólares nas bilheterias (até porque não é exatamente um blockbuster e nem tem um elenco tão estrelado quanto “Inception”). Mas, sem dúvida, um forte candidato a levar alguns prêmios da Academia no próximo ano.

Acabei animando assistir ambos os filmes só agora, bem recentemente. E digo valeu a pena mesmo ter ido! Sei que muita gente tem falado isso e que justamente por esse motivo caras como eu desanimam de ir ver. Mas se você é desses, não deixe que o falatório aí tire sua motivação! Os filmes estão mesmo sendo muito comentados justamente pelo tanto que são realmente incríveis. Os dois melhores filmes do ano, sem dúvida alguma!

1 – A explicação do nome do filme “Inception” no Brasil se deu por uma falta de comunicação da distribuição por essas bandas. A palavra inception pode realmente ser traduzida como origem, começo, mas no filme ela está ligada outro significado, o de inserir, absorver (no caso, a ideia).

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Hipocrisia


Sim! Se você estava no twitter há pouco minutos e chegou até aqui, já sabe do que se trata esse post! Caso contrário, deixa eu te colocar ao par das coisas: hoje, dia 30 de novembro, é em todo o Brasil o Dia do Evangélico! Isso, decrato por Lei Federal (Lei Nº 12.328), em vigor desde o dia 18 de setembro deste ano.

Bom, como cristão, e como portador de um senso crítico que tenho graças à educação que tive, sou obrigado a achar essa lei inútil! Não é um feriado, sequer um dia facultativo! Nem mesmo há grandes manifestações do povo evangélico por aí, Brasil a fora. Então qual é a questão? Se você é religioso, segue uma crença qualquer, ou mesmo se for um ateu (como alguns amigos são), você se sente no direito de defender sua crença, de professa-la, de seguí-la! Certo? Bom, isso também é garantido por Lei Federal e, inclusive, pela lei dos Direitos Humanos:

“A Declaração Universal dos Direitos Humanos adotada pelos 58 estados membros conjunto das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, no Palais de Chaillot em Paris, definia a liberdade de religião e de opinião no seu artigo 18 (…)” – Liberdade Religiosa – Wikipédia

O tal artigo 18, é esse aqui:

“Todo o homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observâcia, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.” – Declaração Universal dos Direitos Humanos

Agora diz aí: se a liberdade religiosa é permitida, se temos o direito de nos manifestar, seja qual for nosso credo, por que ainda aceitamos recriminações? Por que ainda nos calamos quando somos taxados, subjugados, pressionados pelo Governo, autoridades, mídia?

A Internet se julga, ou nós a julgamos, como um veículo livre. Qualquer um pode chegar ali e “colocar a boca no trombone”, fazendo uso desse direito de se manifestar, de criticar… E de ser preconceituoso, difamador… E é isso no que a Internet tem se tornado: um enorme veículo de disseminação de ideias que, muitas vezes, são as ideias erradas.

Cada vez mais, por mais clichê que seja essa frase, as redes sociais se tornam ecléticas, heterogêneas e abrigadoras de todo o tipo de gente, inclusive aqueles que não revelam seus rostos, se fazem de tolos, vestem carapuças e tomam pra si o título de carrascos! Gente que não mostra a cara, mas usa as letras, os 140 caracteres, para dar voz à raiva, o ódio!

E não estou aqui fazendo voz somente aos evangélicos! Também são atacados nessa leva todo tipo de gente que de alguma forma “agride” a sociedade! Ou vai dizer que o caso “nordestinos” de poucos dias atrás não foi exatamente isso? Nesse episódio, uma estudante acusou todos os habitantes da região Nordeste do país de serem culpados pela eleição da nossa próxima presidente.

Da mesma forma, gays, negros, paraguaios, gente que não se encaixa nos padrões da sociedade por algum motivo, são colocados contra a parede. No fim da última semana os moradores da Vila Cruzeiro e do Morro do Alemão foram as vítimas. Quanto o BOPE fazia por lá uma operação chamada de “limpeza” por alguns, de forma generalizada, os moradores desses conjuntos do Rio de Janeiro foram colocados ao lado de traficantes, criminosos, gerenciadores de prostituição e caiu sobre eles toda a culpa do fatídico destino do Rio. Como se eles fossem responsáveis por toda a criminalidade do país.

E dessa vez, no Dia do Evangélico, os próprios foram taxados de hipócritas, de aproveitadores. Como se a culpa de toda a corrupção nas igrejas, no senado, em qualquer lugar, fosse dos evangélicos de modo geral.

Eu já disse aqui de outra vez que não me considero evangélico porque esse termo se tornou estereótipo de uma classe que dedica seu dinheiro mais do que seu tempo, que dá mais valor ao templo do que ao que habita o templo, que se preocupa mais com o futuro terreno e as riquezas deste do que com o futuro eterno e as incomparáveis riquezas dele. Sou cristão! Creio e sigo as doutrinas que constam na Bíblia! E somente essas! Mas sei que muitos dos que se dizem cristãos não fazem por onde, enganam a si mesmos e, muitas vezes, a outros!

Mas generalizar, chamar todo evangélico, cristão ou membro de qualquer crença de ladrão, de corruptor, de “pastor”, é tão ofensa quanto chamar um afro-descendente de “criolo”, de “negrinho”. Ou chamar um homossexual de “viado”, “boiola”. Doeu? Pois é, doi também em nós!

Então, antes de falar de hipocrisia, de iniciar uma campanha contra a liberdade religiosa, de culto, que nos é dada por direito pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, veja quem de fato está sendo hipócrita!

“Não julgueis, para que não sejais julgados.” (Mt 7.1)

Karate Kid


Daniel LaRusso contra o carinha da Academia Cobra Kai
Karate Kid

Não é essa a imagem que vem à sua cabeça quando você ouve falar em Karate Kid? Bom, não é exatamente essa que as próximas gerações terão! E nem aquela música cujo coro é “I am a man who will fight for your honor” (veja o vídeo logo abaixo)… O clássico dos anos 1980, de grande sucesso nos cinemas e várias reprises na Sessão da Tarde, acaba de ganhar uma refilmagem com direito a kung fu e Jack Chan no elenco. E não é que saiu melhor do que o combinado?

Pra você que nunca viu, Karate Kid (The Karate Kid, 1984) conta a história de Daniel LaRusso (Ralph Macchio), um jovem que se muda com sua mãe para uma cidade pequena, nos arredores de Los Angeles e ali conhece o Sr. Miyagi (Pet Morita), o zelador do prédio. Miyagi é um imigrante tailandês (de Okinawan – não, ele não é japonês) fascinado por bonsai e que tem uma história bem triste ligada ao seu passado. A relação entre os dois se estreita quando o sensei decide ensinar o jovem a lutar karate para disputar um torneio onde ele enfrentaria um grupo de estudantes de uma Academia que o estavam perseguindo.  O filme tem ainda Elisabeth Shue no elenco, como o interesse romantico do jovem.

O original arrecadou nos cinemas mais de 90 milhões de dólares e teve direito a duas continuações ainda com Macchio como protagonista e um quarto filme com Morita apenas, ensinando a jovem Hilary Swank (sim, é ela mesma a karateca de 1994). As continuações renderam outros milhões de dólares (cerca de 160 milhões ao todo), com o segundo filme sendo um dos mais bem recebidos pelo público.

Anos depois surge a ideia de colocar mais uma vez nas telas a história do garoto que aprende uma arte marcial para lidar com seus problemas e acaba sendo surpreendido com uma lição de moral e honra.

Cena do filme The Karate Kid, 2010
Jack Chan ensina Jaden Smith no novo Karate Kid

Já tem um tempo que fui ao cinema assistir ao filme, mas acabei escrevendo só agora, enquanto ouvia o velho single por acaso… E acabei relembrando de diversas cenas, frases e detalhes desse novo filme que, pra mim, apenas remete ao antigo Karate Kid, mas que traz uma emoção totalmente nova, deixa expectativas diferentes e que pode muito ser o começo de uma nova franquia.

Pra quem não curte spoliers, sugiro não continuar lendo…

Apensar da premissa de se tratar de um filme de luta, remake de um clássico dos anos 1990, o novo The Karate Kid se separa do estereótipo logo no começo, quando vemos que o conflito do jovem interpretado pelo excelente Jaden Smith vai além da mudança para a China. Sua relação com a mãe já era um tanto conturbada e é nesse detalhe que o garoto vai ser tratado em grande parte pelo zelador. A atuação do garoto me surpreende diversas vezes, e várias vezes por ele estar com tantos trejeitos do pai, Will Smith. Um amigo afirmou algo muito certo quando disse que estão tentando dar a ele a mesma pinta de garanhão que o pai tem. Mas nesse caso, veio bem a calhar, uma vez que a personalidade do jovem Dre Parker é justamente a de um menino que se vê odiado por ser americano numa terra que valoriza tanto sua própria cultura.

O estereótipo do ator de pancadaria também cai por terra para Jack Chan. Com cenas que beiram ao sentimentalismo, Chan mostra que também é um bom ator para filmes com apelo emocional maior. E que também não depende só de lutas para estar bem na tela. Com as suas dicas e sarrafadas no melhor estilo Miyagi, Mr. Han rouba a cena algumas vezes e dá nova vida ao personagem que ficou marcado no filme original.

Karate Kid com Jack Chan e Jaden Smith
cartaz da nova versão de The Karate Kid

O enredo também surpreende! Quem viu a primeira versão de Karate Kid provavelmente foi ao cinema já sabendo de cor o roteiro, mas teve a excelente surpresa de ver caminhos diferentes serem trilhados para se chegar ao final. Claro que o final sim, é o mesmo, com a mesma ideia da luta final e etc. Mas a trilha chinesa (trocadilho aqui) seguida para se chegar lá foi bem legal. Mérito dos roteiristas que souberam aproveitar não só o visual chinês, mas também a cultura local para preencher a história!

Para quem viveu aquele saudosismo ao ver o filme, ou para quem não conhecia a história por trás do Karate Kid, o filme vale o mesmo tanto! Seja pelas cenas de luta, pela boa história que continua funcionando bem, ou pelas atuações. Com um orçamento considerado baixo para os padrões hollywoodanos, de pouco mais de 40 milhões de dólares, o filme já abriu faturando alto e tem a marca de mais de 350 milhões arrecadados até agora, a 9ª melhor arrecadação do ano.

Com a boa arrecadação, e sabendo do sucesso dos anteriores, é bem provável que a nova versão de The Karate Kid ganhe continuações. E não necessariamente mantendo o enredo das sequências existentes. Tomara!

Fontes dos dados: IMDB e Box Office Mojo

Tropa de Elite, osso duro de roer…


Tropa de Elite
Osso duro de roer
Pega um pega geral
Também vai pegar você

Quando o hit começa a tocar, não tem jeito: toda a platéia se manifesta ou cantando junto, ou batendo as mãos acompanhando o ritmo, ou se mexendo, balançando a cabeça… Provavelmente foi assim que Tropa de Elite 2 foi recebido na maior parte dos cinemas brasileiros! E foi assim ontem, na sessão em que eu estava, lotada, em plena quinta-feira, já na terceira semana de exibição do filme que deverá ser, de longe, o maior sucesso nacional de todos os tempos.

Tropa de Elite 2: O inimigo agora e outro
cartaz promocional do filme Tropa de Elite 2

Seguindo o mesmo caminho de seu antecessor, Tropa 2 mostra os bastidores das operações do Batalhão de Operações Especiais, o BOPE, que ficou popular após o primeiro filme. Apelidados de caveiras, os membros do grupo são treinados para agir como uma força tarefa na guerra contra o tráfico no Rio de Janeiro. Na trama do anterior, o então Capitão Roberto Nascimento (Wagner Moura), é o responsável pelo treino e por parte das ações táticas desse time de “super-policiais”. Com um apelo fortemente voltado para a violência, tratando dos traficantes e demais bandidos com pouquíssima cordialidade (e muita pancadaria), o filme ganhou a simpatia do público brasileiro, cansado de ver esses criminosos saírem impunes, e extasiados de vê-los pagando pelos pecados… Mesmo que de uma forma nada justa, e às vezes demasiadamente cruel!

Wagner Moura
Coronel Nascimento (Wagner Moura) em ação

O segundo filme vai na mesma linha, porém explora mais do que as operações táticas do Batalhão, indo até os bastidores do poder público, onde jogos políticos e de interesse econômico controlam até mesmo a própria polícia e sua influência nas comunidades. Enquanto o primeiro filme se baseia em uma história real, retratada no livro Elite da Tropa, escrito por Luiz Eduardo Soares, a sequência tem roteiro próprio, aparentemente fictício, mas que é o fiel retrato da sociedade brasileira de hoje.

Envolvido cada vez mais pelo poder público, Nascimento se torna Coronel, se encaixa na Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro e começa uma operação que, para ele, iria limpar de vez as ruas do tráfico de drogas e de toda a rede de corrupção envolvida. Mas ao invés disso, as suas ações abrem uma brecha pra que outro tipo de corrupção se instaure e tome conta das favelas, nas mãos dos próprios policiais. Assim, Nascimento percebe que sua guerra passa a ser contra as milícias: grupos de policiais corruptos que controlam os morros cariocas.

Seu Jorge e o diretor José Padilha
Seu Jorge e o diretor José Padilha

Tropa 2 conta com um elenco de peso, começando pelo próprio Wagner Moura, que volta com uma atuação impecável, assim como do filme anterior. Se no primeiro Tropa o Capitão Nascimento se tornou símbolo pela sua personalidade, firmeza e pelo seu caráter, que mesmo passando por problemas de relacionamento, se mantinha imaculado, na sequência ele se torna ainda mais empático com o público, mostrando ser ainda incorruptível, mesmo não sendo um homem exemplar!

O cast ainda tem André Ramiro e Tainá Müller, que também estavam no anterior, além de Maria Ribeiro, João Miguel, Fernanda Machado, Irandhir Santos e Seu Jorge, com uma perfeita atuação logo no começo do filme.

Tropa de Elite 2 conta não só com um bom enredo, com uma verosimilhança incrível, mas com uma produção excelente, que é de longe a melhor pra um filme produzido em solo tupiniquim. As cenas de ação são recheadas de tiros, ao molho de muito sangue, às vezes até exagerado, mas com tomadas boas, som impecável e um ensaio incrível que faz cada bala parecer mais real que a anterior. Nao me lembro de ter visto nem em filmes americanos cenas em que se sentisse tanto o impacto de um soco, um chute ou um tiro.

E é exatamente com um tiro que o filme encerra. Não vindo de um revólver, mas das palavras fortes do protagonista que fecha o filme com um discurso que no mínimo nos faz pensar sobre a nossa parcela de culpa no cenário social do nosso país. Um segundo tiro então vem, na voz de Hebert Viana, com a música “O Calibre”, que encerra o filme.

Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei d’aonde vem o tiro

Meu Malvado Favorito (Despicable Me, 2010)


Há muito tempo não escrevo sobre um filme aqui no blog! Mas nesse feriado prolongado, que em Curitiba é mais prolongado ainda pelo dia 8 de setembro (dia da padroeira da cidade), resolvi aproveitar a promoção da segunda-feira com ingressos a 6 reais (e 3 a meia pra estudante) e fui ao cinema. E devo dizer que entre as várias boas opções, foi difícil escolher: A Origem, Os Mercenários, O Último Mestre do Ar e vários outros. E meio que por uma escolha aleatória (na verdade foi por ter que decidir ver algum filme dublado e uma animação é sempre a melhor escolha nessas horas), acabei na sala que exibia Meu Malvado Favorito. Entre várias crianças elétricas, um som muito alto e a eterna falha da dublagem brasileira de deixar os efeitos especiais mais altos que a voz dos personagens, cheguei à conclusão de ter feito uma ótima escolha!

Uma leva de boas animações tem sido lançadas nesses últimos anos. Pra falar a verdade, desde que o primeiro Toy Story foi lançado, a Pixar e a Dreamworks tem duelado incessantemente em levar ao público histórias originais, com belíssimo enredo, engraçadas na medida certa, ótimo plano de fundo, personagens cativantes… Receita pronta e garantia de boa bilheteria! Carros, Walle, Up… Exemplos de animações que misturam perfeitamente o cômico e o drama e criam histórias cheias de lições. Não aquelas lições baratas de moral dos contos antigos, mas verdadeiras lições de valor da amizade, da ética, do cuidado com nosso planeta. Mas tudo acabou se tornando tão clichê que a coisa começou a ficar previsível…

Esse ano nenhuma animação conseguiu me arrastar para os cinemas. Cheguei a ir para ver Ironman 2, Esquadrão Classe A e Prince of Percia (todos muito bons, pra caras como eu que amam blockbusters). Mas nem mesmo o aguardadíssimo Toy Story 3 foi suficiente para me fazer sentir motivado. A explicação é uma só: a onda 3D! Eu simplesmente não suporto mais ouvir falar desse ou daquele filme, aquela cena, aquele trecho… Tudo 3D!

Tudo agora se resolve de modo fácil: um filme qualquer com uns efeitinhos 3D vira campeão de bilheteria. Não, isso não é sobe Avatar e não irei começar aqui uma discussão sobre plágios, orçamento exacerbado e uma chance de engatar uma trilogia bilionária. Eu gostei de Avatar, mas não vi 3D. Aliás, não tive coragem ainda de pagar mais de 20 reais numa sessão 3D para filme algum…

Acontece que quando vi o trailer de Meu Malvado Favorito e sua simples menção de que o personagem central da história seria o vilão, algo me pareceu tão fora dos clichês… Um vilão que no fundo não era assim tão mau. Um vilão que se mete numa trama tão cheia de boas sacadas que simplesmente não dava para não ir ver. E quase deixei pra ver outra hora. Mas foi, sem dúvida, minha melhor sessão de cinema esse ano.

Como isso aqui não é uma crítica de um site sobre cinema, não vou me ater a contar detalhes ou fazer análises detalhadas (eu larguei o jornalismo, lembram?). O roteiro do filme é simples: O temível Sr. Gru é um vilão de meia-idade que nunca engatou um grande plano maléfico. Ele é auxiliado pelo Dr. Nefário e pelos minions, pequenas coisinhas amarelas altamente viciantes de tão engraçadinhas. Em seu plano para se tornar o maior vilão de todos os tempos, Gru decide roubar a Lua. Mas ele tem um arque-rival: um jovem vilão chamado Vetor que fará de tudo para sabotar seu plano. Em meio à disputa de poder entre os dois vilões, três garotinhas órfãs, Margô, Agnes e Edith, acabam se envolvendo e são adotadas por Gru como parte de seu plano maquiavélico. As três garotinhas não só mudam toda a rotina de vilania de Gru como acabam amolecendo seu coração e dão outra direção aos planos do malévolo.

Na dublagem brasileira, apesar de todos os ‘ senão’ que sempre me aborrecem (como o som exageradamente alto dos efeitos de explosões que se sobrepõe às vozes, por exemplo), há sempre uma enorme vantagem: sobra tempo para se ver os detalhes das cenas… Aqueles detalhes que se perdem quando temos que prestar atenção nas legendas. E nas animações esses detalhes são fundamentais. Em Meu Malvado Favorito então, elas são o ponto em que está toda a graça. Não dá pra perder um minuto sequer dos minions em cena.

Confesso que me apaixonei pelas boas gargalhadas do garotinho de uns 2 anos que estava ao meu lado e que isso me fez repensar o estar ali no meio daquela criançada (eu já disse que era a sessão das 22 horas e que estava lotado de crianças e pais?). Nunca tive problemas com crianças. Na verdade, eu gosto bastante e sonho muito em ter meus próprios filhos. Mas pra ver filme, sempre preferi o silêncio. Às vezes até prefiro ver sozinho em casa… Mas de alguma forma sentia falta de ouvir essa euforia infantil. Me fez me sentir um pouco mais velho, mais adulto, e pensar bastante numa série de coisas importantes.

O filme em si também é uma enorme lição, como tinha que ser. Enquanto se aproxima das meninas, Gru vai aos poucos percebendo a importância das crianças em sua vida. Aquele seu lado durão, de grande vilão do mau, vai aos poucos cedendo ao cara bom que ele na verdade era. A doçura das meninas, o jeito como aos poucos elas começam a se identificar com ele, e como o lado paternal dele vai aos poucos se mostrando, põe em cheque toda essa cultura que temos vivido em que as próprias crianças tem se tornado cada vez mais adultas e como o mundo delas tem ficado tão parecido com o nosso.

Acho que já deu pra perceber que o tema aqui não é bem o filme em si, não é? Por incrível que possa parecer, assistir à essa produção me fez pensar demais e refletir sobre como tem sido nossa relação com nossas crianças. As três garotinhas do filme são exatamente como as crianças tem que ser: carentes, bagunceiras, querem atenção, querem companhia para brincar, querem alguém para contar histórias, querem um adulto para ser exemplo em suas vidas. E quando acham em Gru esse alguém, as meninas começam a moldar a personalidade dele para que ele seja esse referencial.

Faço essa crítica me colocando na posição de adulto. Talvez seja a primeira vez que vejo a mim mesmo dessa forma, como responsável pela formação do caráter das crianças, como referência pra elas, como alguém que pode se exemplo de como fazer o certo… E o que nossa sociedade tem sentido mais é uma enorme carência disso. Nós temos sido os malvados favoritos de nossas crianças, que acabam nos imitando e sendo tão más quanto nós. Nas corrupções que tanto gostamos de apontar, esquecemos de falar daquelas que estão no nosso dia-a-dia e que nossas crianças têm aprendido.

No fim do filme, Gru se torna um herói. Não vou contar como para não estragar tudo, mas vale a pena dizer que o fim do filme é o final perfeito de uma lição que deve permanecer não só nas nossas risadas durante o filme, ou nos comentários e críticas dos jornais. Essa lição é daquelas que deve começar um diálogo que dê origem a uma mudança de pensamento. Eu quero ser exemplo para nossas crianças. Não de um malvado legal, mas de uma boa pessoa, com boa índole, honesto, responsável. E quero que meus filhos vejam em mim esse tipo de pessoa e aprendam a ser assim. Quem sabe no futuro eles também não sejam capazes de mudar a sociedade simplesmente agindo diferente?

Pra fechar, deixo aqui uma amostra do filme, para você que talvez ainda não tenha assistido. Confira o trailer de Meu Malvado Favorito:

PS.: Acho que nunca achei tantos sinônimos para mal, maldoso, maléfico e etc.