Liberdade ainda que tardia?

Liberdade ainda que tardia?

O que é liberdade para você? É, eu sei, parece tema de redação da 8ª série, ou o começo de uma propaganda de operadora de telefonia. Mas como você responderia a essa pergunta? Existem várias definições pra se pensar, seja ela filosófica, cultural, sociológica… Ou mesmo se você tem uma definição baseada na sua crença religiosa.

Tenho falado muito sobre liberdade ultimamente, seja aqui no blog, em outros textos, ou mesmo nos papos com os amigos. Acho que isso tem sido um tema com o qual gostaria de poder trabalhar mais a fundo, mas não é o caso.

O que quero trazer aqui, com esse texto, não é mais do que uma reflexão sobre tudo o que tenho lido e conversado ao longo dos últimos meses. Na filosofia, o termo liberdade tem diversos significados e, grande parte deles, se refere negativamente ao senso de “autonomia” do ser, frente às suas obrigações na sociedade. Mas, muitas vezes, ela é tida como fundamental num processo de “libertação” do homem de um sistema que o oprime o força a fazer determinadas coisas.

Agora, se falamos de autonomia, podemos considerar livre algo que ainda seja tão dependente, tão influenciado por outra coisa? Ainda mais se esta segunda fizer pressão sobre a primeira? Não é novidade para ninguém que somos cercados por esse tipo de pressão, de informações que nos influenciam e nos fazem pensar e agir de acordo com certas “convenções”. Isso quando não há, de fato, coação.

Ser livre
“Abra os braços para a Liberdade!”

A tal liberdade que tanto sonhamos, não passa de um mito que, na verdade, não funciona. “A liberdade é uma utopia”, já dizia o maltrapilho Falcão em O Futuro da Humanidade, de Augusto Cury. Somos todos prisioneiros de um Sistema que impera sobre nós. Somos feitos alienados pelo próprio Sistema.

“Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda.”
— Cecília Meireles, em Romanceiro da Inconfidência

Como mineiro, me cansei de ver certa bandeira tremulando nos pátios das escolas, nas praças, em eventos cívicos e etc. E cansei de ouvir falar sobre o que ela significa. LIBERTAS QUÆ SERA TAMEN. Liberdade ainda que tardia. Esse era o lema dos inconfidentes, que durante o século  XVIII se levantaram contra os abusos do Império e buscavam a emancipação do solo tupiniquim.

O movimento não alcançou o resultado esperado, terminou em traições, mortes, mas criou um mártir, talvez o mais importante da História do Brasil, mesmo que haja muita coisa que não era exatamente verdade nessa história. Joaquim José da Silva Xavier, ou o Tiradentes, ficou marcado por ser alguém que lutava pela liberdade. Mas o que Tiradentes conquistou com o alto preço que pagou com sua morte? Essa tal liberdade chegou? A emancipação do Brasil do Império Português, sim. Mas e a verdadeira independência?

E não é só de independência governal que estamos falando aqui. Hoje, nossa liberdade é muito mais tomada pela própria mídia do que pelo Governo em si. Logo eles, que brigaram tanto pela liberdade de imprensa, fazem mal uso dela ou simplesmente a ignoram.Sobram casos pra ilustrar isso, mas quero aproveitar o gancho do acontecimento da última sexta-feira em solo mineiro.

No dia 16 de setembro foi realizado no Palácio da Liberdade (olha por onde começa a ironia), antiga sede do Governo de Minas, um evento comemorativo inaugurando um relógio que cronometra os dias faltantes para a realização da Copa do Mundo. O relógio foi estartado do dia 1000.

Antiga sede do Governo de Minas Gerais
Palácio da Liberdade

No mesmo dia, professores e funcionários de escolas de todo o estado completavam 100 dias de greve. Aproveitando a presença da imprensa no local, manifestantes compareceram ao Palácio para tentar uma conversa. de cara foram impedidos pela segurança do local que não permitiu aos professores sequer se aproximar do local do evento. E mais, ninguém, fora a imprensa, pode chegar ao local, que de um evento público se tornou privado, reservado somente para os de interesse do próprio governo. Se não bastasse, houve represália, violência contra os manifestantes e ataques desnecessários para que esses fossem expulsos do local e não causassem tumulto num evento de repercussão mundial.

Afora o próprio comportamento do Governo de impedir o acesso da população, da segurança local de agir com violência contra o povo, a postura da imprensa mineira foi a pior de todas: nenhuma notícia sequer foi veiculada pela mídia local reportando o incidente. Mesmo nas outras mídias, foi preciso vasculhar muito pra encontrar qualquer notícias relacionada. Ao contrário do que se esperava, a imprensa mineira preferiu não noticiar a manifestação e super valorizar o evento apoiado pelo Governo Federal.

Nem vou entrar nos méritos da palhaçada que está sendo essa tal campanha pró-Copa. Isso, por si só, já daria um belo dum post no blog. O que quero ressaltar com isso tudo é que nossa liberdade, nosso direito de nos expressarmos, de nos manifestarmos, está sendo a todo instante reprimido. E até mesmo aquela que deveria ser nossa voz, a imprensa, tem se calado frente a abusos de poder dos nossos governantes. Nossas autoridades não tem permitido que nós façamos valer nosso direito.

A tal liberdade pela qual lutaram Tiradentes, os inconfidentes mineiros, os gaúchos e os baianos, durante todo o período imperial brasileiro, pela qual nossos jornalistas lutaram durante a Ditadura, pela qual nossos jovens lutaram com caras pintadas, simplesmente continua não existindo e nós nos acomodamos com isso. Até quando?

Eu quero essa liberdade! Ainda que tardia…

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