maconha

Marcha da Maconha vs. Liberdade de Expressão

No dia 22 de maio um grupo de manifestantes saiu às ruas de Curitiba (e de algumas outras capitais do país) para reivindicar, entre outras coisas, a liberação do uso da maconha no Brasil. O movimento, que não acontece somente no Brasil, mistura um ato de Liberdade de Expressão com a liberação da droga e questiona a falta de liberdade que um indivíduo tem com seu próprio corpo e/ou saúde.

Manifestantes fazem passeata pela liberação da Maconha
Estereotipados, usuários da droga saem às ruas

Inúmeras questões são levantadas e não cabe a mim, nesse espaço, querer elucidar todas elas, até por ser um leigo no assunto. O que a sociedade prega, e já há um bom tempo, é que o uso da maconha é nocivo, prejudicial à saúde por ter uma série de efeitos colaterais a longo prazo, como a destruição de neurônios. Outra questão bastante relevante é o fato de que, quase sempre, a maconha é predecessora de outras drogas.

Em contrapartida, os usuários da droga defendem que o alcoolismo e o tabagismo seriam vícios piores que o uso de maconha por serem mais intoxicantes e causarem danos até maiores ao organismo do dependente. Eles também defendem o fato de que a liberação do uso da droga diminuiria significativamente o tráfico, uma vez que possibilitaria que cada usuário produzisse a própria droga.

Independente da questão social e dessa discussão, o uso da canabis sativa tem crescido cada vez mais e se popularizado dentro das universidades em todo o Brasil. Não é difícil ver pelo corredores diversos jovens que compartilham a droga, comercializam e alguns que, inclusive, produzem em casa… E é menos difícil ainda reconhecer os usuários da maconha.

Toda essa questão que estou levantando aqui não é, de forma alguma, uma apologia ao uso das drogas. Muito menos um questionamento quanto à visão social sobre o vício e a dependência da mesma. E também não se trata de um argumento contrário à legalização da maconha. Trata-se de um apelo à discussão.

Cena comum no cotidiano jovem, principalmente universitário
A famosa “Marijuana”

Poucas vezes em nossa sociedade foi possível abrir-se um canal direto em que se pudesse debater um tema tão polêmico quanto o uso da maconha. Das Eleições Gerais do último ano pra cá, temas como aborto, casamento homossexual e outros tantos tem ganhado esse espaço de discussão através da mídia e, principalmente, através da Internet. Artigos, crônicas e diversos textos em blogs tem exposto essas questões ao grande público e os tornados visíveis.

A legalização da maconha ganha também seu espaço através dessa manifestação, através do direito da Liberdade de Expressão que, entre outras coisas, tem sido questionado e é, em suma, o tema desse texto.

Quero deixar bem claro isso: não faço apologia ao uso de drogas, não uso drogas e não sou simpatizante da causa da liberação da maconha, fora seu uso medicinal, que desconheço pouco.

Mas o fato é que a tal Liberdade de Expressão tem sido amplamente discutida e, uma vez parte da nossa constituição, não pode ser limitada por novas leis que venham a surgir. Independente de hoje o uso da maconha ser considerado crime no Brasil, uma manifestação pacífica, desde que assim o seja, é algo de direito de qualquer cidadão. Essa liberdade não pode ser limitada por um ou por outro, por meios de comunicação, por “politicagens”,  ou seja pelo que for.

Todo indivíduo tem, por direito, a liberdade de se expressar sem que haja qualquer tipo de coação, de repressão ou negação desse direito. E é isso que, cada vez mais, a Internet tem proporcionado. Desculpe-me o uso desse argumento tão clichê, mas se trata da pura verdade. O único espaço aberto que temos hoje pra qualquer tipo de discussão é a Internet. Se alguns poucos têm ousado sair às ruas para se manifestar, se expressar, lutar por algo em que acreditam, não temos o direito de os recriminar. E isso vale não só para essa Marcha da Maconha, mas também pra outras manifestações.

No sábado anterior, dia 21 de maio, aconteceu também em Curitiba outra marcha, a dos cristãos, principalmente evangélicos que saíram em passeata pela cidade. A Marcha Para Jesus, iniciada em Londres por pastores evengélicos, se tornou um dos principais eventos cristãos no mundo e se repete, há pelo menos 22 anos, nas principais cidades do planeta. Mas, da mesma forma, a Marcha tem sido tratada como um distúrbio à ordem dentro das cidades. Mesmo sendo, dentre as manifestações, uma das mais pacíficas.

Em tempo: Desde 2009 a Marcha Para Jesus consta no calendário oficial brasileiro, sendo sua data o sábado seguinte ao 60º dia após o domingo de Páscoa. Lei essa sancionada pelo então presidente Lula (aqui).

Marcha Para Jesus no Rio de Janeiro
Manifestantes cristãos na Marcha Para Jesus

Ano passado, outra manifestação cristã foi alvo de severas críticas no Rio, sendo inclusive ponto de discórdia entre Globo e Record em matérias veiculadas por ambas em suas mídias diversas (TV, rádio e jornais). Foi inclusive tema de outro post aqui no blog [estero]tipo.

Tal como essas manifestações, muitas outras acontecem no Brasil e são, de alguma forma, questionadas ou até mesmo repudiadas. Principalmente pela mídia. Não é incomum ver nos veículos de informação do país diversas vezes essas ações serem descritas com termos pejorativos, com severas críticas à elas e etc.

Assim, a tal Liberdade de Expressão, vem sendo dizimada no nosso país, através de diversas ações que chagaram, inclusive, ao Palácio do Planalto e tem feito com que temas como esses, tenham ainda menos espaço para discussão. O indivíduo que, em tese, deve ter o direito de se manifestar a favor ou contrário a qualquer evento, seja uma posição política, religiosa ou filosófica, vê seus espaços serem diminuídos.

Quero encerrar esse post pontuando duas coisas: Liberdade implica em consciência. Consciência implica em educação de qualidade. Se por algum motivo, o ato de se expressar com liberdade passa do limite e se torna preconceito, se torna um movimento de violência, se torna um problema social, o princípio disso tudo está na educação dada ao cidadão. E isso é um tema para outro post.

A segunda coisa: se a liberdade passa dos limites, isso sim deve ser tratado como crime passível de punição. Afinal, liberdade não é libertinagem. Mas há muito ainda pra se aprender sobre isso, principalmente no nosso modelo de educação.

6 opiniões sobre “Marcha da Maconha vs. Liberdade de Expressão”

  1. Muito bom, cara. A vontade é que o que vc diz aqui seja a consciência de muitos. Acredito que a Liberdade de Expressão tem sido barrada na própria liberdade de escolha… afinal, com tantas manifestações contrárias da mídia com relação a Marcha para Jesus, por exemplo, cria-se uma falsa ilusão de que optamos por sermos contra esse tipo de manifestação, sem uma devida reflexão. O mesmo se faz com uma marcha para a liberdade de expressão (entitulada assim depois que proibiram o termo “maconha”para que não houvesse apologia a droga).

    Enfim, no caso da marcha para a a legalização do uso da maconha, acho que existe um mau entendimento do termo “liberdade”. Vou usar a velha máxima: “a minha liberdade termina quando começa a do outro”. Então, não se questiona “eu posso fazer o que eu quiser com o meu corpo, porque ele é meu”mas, sim, deve ser entendido que o uso da maconha não é um prejuizo somente ao indivíduo que o utiliza mas também a sociedade como um todo. É o mesmo caso da proibição de fumar em ambientess fechados (em SP e Minas é assim): muitos queixam que “a lei me proibe de fumar”… mas não é isso: a questão é a lei proibe que um fumante pertube o “direito” de respirar do próximo.

    Enfim, dá pano pra manga huehueheue Gosto muito dessa discussão. Aliás, to meticulando há uns dias o que eu posso postar a respeito.

    1. É, soube que mudaram em alguns lugares, mas por aqui ela ficou como Marcha da Maconha mesmo, por isso insisti no nome! O fato é que os caras foram às ruas pra se posicionar com relação ao que eles crêem que é o direito deles.

      Concordo com você na “máxima”. Mas vejo que se for analisar assim, qualquer coisa pela qual quisermos lutar terá um movimento contrário dizendo que estamos “perturbando” o outro. Foi exatamente assim com a Marcha Para Jesus. O “barulho” dos evangélicos incomoda (mais do que o da passeata, o moral).

      Com relação à lei anti-tabagismo, aqui em Curitiba ela já é velha. E é seguida! E está mais do que certa, uma vez que o fumo não traz males só ao sujeito, mas ao fumante passivo também, que acaba intoxicado. Não vejo como a mesma problemática (salve Dadá Maravilha) do caso das manifestações públicas. Nem os mesmos males do uso da maconha, que são igualmente nocivos, mas de forma diferente.

      Realmente é um assunto que dá pra escrever vários e vários textos, pelo seu alto teor de argumentação, fora a consciência limitada do cidadão brasileiro que é mal educado pela sociedade. Tanto que vem mais um texto por aí que já está engatilhado!

      Valeu, mais uma vez, pela passagem por aqui, Marcus! Abraços!

  2. ALAM!

    Achei legal o texto, mas tem uma coisa muito importante a se ressaltar com relação a “liberdade de expressão”

    As pessoas confudem muito liberdade de EXPRESSÃO com liberdade pra fazer o que quiser sem ser punido, a diferença entre uma coisa e outra é GIGANTE!

    Outra vez vi uma entrevista de um pessoal de portugal falando sobre o que eles pensam sobre negros, ciganos e imigrantes. Veja bem, os comentários pareciam super preconceituosos, mas estavam em seu direito de se expressar! Eu fiquei imaginando se fizessem a mesma coisa aqui no Brasil, na região especifica de sudeste e sul do Brasil… seriam as pessoas presas por expressarem o que pensam?

    Realmente, nós brasileiros, me incluo nessa, temos que aprender muito sobre essa tal liberdade de expressão, e acho que só o tempo vai permitir isso, afinal muitos brasileiros ainda estão marcados pela época de ditadura militar e um medo de se expressar muito grande. E inclusive, muitos politicos ainda pensam da mesma maneira que antigamente, por esse motivo há tantos processos contra determinados deputador que apenas se expressam, dou como o exemplo o polêmico Jair Bolsonaro.

    1. E aí, Rafa (alam-master)!

      O que você disse vem bem de encontro aos dois últimos parágrafos do texto. É exatamente esse tipo de possibilidade de expressão que tento mostrar aqui. Se expressar é uma coisa! Atitudes violentas, preconceito, discriminação, são coisas completamente diferentes. E é isso que o brasileiro ainda não entendeu!

      Curti bastante sua participação aqui. Valeu pela visita e pelo comentário, brother! Abraços!

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