Gêneros Musicais: Rock Gospel? Existe isso?

Existe rock gospel? Essa pergunta com certeza já foi tema de discussão em muitos lugares por aí. Eu mesmo já participei de algumas. A questão é que a pergunta errada está sendo feita. Se você tem acompanhado os últimos posts desse blog, deve ter percebido que tenho tentando mostrar que há uma distinção entre gênero e estilo musical. Enquanto gênero está bem mais ligado ao som, estilo envolve a postura, comportamento, ações e até mesmo o pensamento envolvido por trás de uma música. Então o rock é um gênero ou um estilo? Historicamente, o rock é um estilo que envolve revolução, uma completa mudança na sociedade, mas que gerou diversos gêneros. O gospel foi uma das origens do rock, mas, por sua vez, continuou sendo um estilo, uma maneira de se fazer música, ou de se levar uma mensagem através da música. Então existe rock gospel? Se formos considerar um estilo, podemos sim somar esses dois e gerar um terceiro. Mas quando normalmente se diz rock gospel, as pessoas estão querendo rotular, criar um gênero que não existe.

Pictogramas roqueiros
Pictogramas "roqueiros"

Enquanto o rock e o pop se movimentavam, o gospel continuou sendo a maneira como as igrejas faziam música. Depois de toda a revolução social e cultural americana, o gospel deixou de ser exclusivo das comunidades negras e se expandiu, mas não perdeu a essência de um estilo em que a maneira, a postura e a mensagem transmitidas pela música eram mais importantes do que a própria música. Isso se vê ainda hoje nas músicas ditas congregacionais. Inclusive é uma opção minha deixar de usar o termo gospel, que hoje tem um teor altamente pejorativo, e adotar congregacional (relativo à congregação, à igreja ou reunião religiosa) que para nós tem muito mais a ver.

O que aconteceu de fato é que o gospel não deixou de ser algo restrito às igrejas, às congregações, e em momento algum se misturou com outros estilos. A confusão de fato começou com a criação de rótulos que tentavam enquadrar artistas cristãos separados dos demais artistas. Então o gospel passou a englobar qualquer artista cristão, mesmo que esse tocasse ou cantasse rock, pop ou qualquer outro gênero.

Petra, nos anos 1970
Petra, nos anos 1970, quando era moda ter esse visual

Na verdade, durante a época do “Jesus Movement Revival”, diversos grupos surgiram entre os jovens cristãos que ouviam e tocavam rock e pop e, pra variar, não eram bem aceitos nas igrejas. Love Song, Petra e Barry McGuire, entre outros, foram alguns dos grupos que surgiram nessa época. Esses grupos tiveram que fazer sua estrada fora das igrejas, em manifestações nas ruas e em eventos específicos do “Jesus Movement”.

Começou então um movimento chamado de Jesus music, que mais tarde viria a ser conhecido como Contemporary Christian Music, ou CCM. Esse movimento incluía bandas de rock, cantores e cantoras pop e grupos de louvor a adoração (que é diferente de gospel). Como base de todo esse movimento, foi criada uma indústria cristã, independente da indústria musical americana, em Nashville, no Tennessee. Inclusive vários artistas se mudaram para a cidade formando um enorme conglomerado cristão.

Durante muitos anos, principalmente nas décadas de 1960, 1970, 1980 e 1990, Nashiville foi considerada a capital mundial da música cristã, justamente por causa dessa aglomeração da indústria musical. Nessa época surgiram grandes nomes da música cristã e foi fundada uma associação musical, a Gospel Music Association, ou GMA. Essa associação promove anualmente o Dove Awards, uma premiação exclusiva para a música cristã, e á está na sua 40ª edição.

Do começo do século pra cá Nashville deixou de ser o centro da CCM e muitos artistas nem sequer tem se vinculado a esse movimento. Mesmo tendo letras com conteúdo altamente influenciado pelas crenças e costumes cristãos, preferem não aderir ao rótulo para continuar tendo portas abertas em qualquer gravadora e evento. Caso do U2, por exemplo, que é formado por membros cristãos (católicos e protestantes) e de grupos mais recentes, consagrados no meio cristão, como o Switchfoot e o Jars of Clay.

Stryper: eles eram feios, mas faziam sucesso
Stryper: eles eram feios, mas faziam sucesso

Durante algum tempo, ouviu-se a expressão white metal em algumas rodas de discussão musical. O termo deriva do black metal, que popularmente estava associado à bandas de metal muito pesado, com letras bem sombrias e visuais de extrema afinidade com o que se chamada de “movimento satanista”. Na verdadem grade parte dessas bandas de black metal nem eram realmente satanistas, mas era moda. O movimento white metal vinha se opor a isso, trazendo bandas de metal que se portavam de maneira diferente. Nessa época, meados dos anos 1980 e 1990, surgiram grupos como Whitecross, Stryper e diversas outras bandas que se assemelhavam a grupos não critãos no som, mas com postura bem diferenciada.

Nos Estados Unidos, durante certo tempo, surgiu uma definição para identificar uma geração da artistas que, além de tocar rock e ter letras explicitamente cristãs, tinham uma postura “contra o sistema”, ou contra a moda da época, tanto nos palcos como fora deles. Bandas como Petra, Guardian e dc Talk, com um som que ocilava entre o rock alternativo e o white metal, ganharam um gênero próprio, chamado de christian rock. Ainda hoje é popular por lá classificar algumas bandas nesse gênero, assim como aqui no Brasil é comum chamar algumas bandas dessa fase, como o Oficina G3 ou o Resgate, de rock gospel.

A diferença é que o christian rock é uma parte de um movimento, o CCM, é uma definição não conceitual, ou melhor, não é usado para definir um gênero, mas uma tendência, um grupo de artistas similares pelo som e pela crença. O próprio christian rock se subdivide em grupos que se definem mais pelo gênero, como christian alternative rock ou christian  hardcore, devido as fusões dessa ideologia com outros gêneros.

Isso é gospel
Isso é que é "gospel" de verdade

Já o “rock gospel” que temos aqui se tornou um rótulo comercial forte e tenta definir um gênero, como se todas as bandas de rock gospel fossem iguais. Ou como se realmente pudesse existir um rock gospel e um rock não-gospel. Rock é rock. Pop é pop. Gospel é gospel.

Hoje, costuma-se ver uma completa confusão entre o que é ou não cristão. Algumas bandas fazem questão de se declarar cristãs, outras não. Algumas não aceitam rótulos religiosos e preferem ficar livres para atingir todos os públicos. Outras logo se dizem cristãs e fazem “sucesso” no meio. A grande questão é que realmente não importa se os artistas se dizem ou não cristãos. Isso pouco importa com o gênero musical do grupo. Rock é rock. Pop é pop. Gospel é gospel.

Não quero com esse texto criar uma nova polêmica, até por que não acho que seja suficiente para isso. A questão que quero levantar é que existe uma imensa confusão quanto ao som e à mensagem trazida através desse som. A mensagem pode ser trazida em qualquer estilo, qualquer gênero. Isso não faz a menor diferença. O importante é qual é essa mensagem. E isso não tem nada a ver com ser ou não gospel. Tem a ver com ser ou não inteligente. Tem a ver com ser ou não decente. Tem a ver com ser ou não um exemplo de moral para as crianças e jovens. Mais do que fazer sucesso e ser um rock star, os artistas tem que lembrar que suas mensagens estão sendo disseminadas nas cabeças de milhares de fãs, e é essa a mensagem que importa.

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13 opiniões sobre “Gêneros Musicais: Rock Gospel? Existe isso?”

  1. gostei muito concordo com vc…. ainda bem q tirei minhas duvidas.. brigado esse assunto é muito bom mesmo!

    1. Obrigado, Kissya…
      Sua visita é sempre bem-vinda!
      Tratarei de mais assuntos como esse e terei sempre novidades aqui no site, OK?
      Mais uma vez, obrigado!!

  2. A PAZ DO SENHOR!

    Não quero criticar ninguém, pois somente Deus é Juiz de nossos atos.

    Mas gostaria de compartilhar com todos a minha opinião. Falo por mim neste momento, mas poderia listar muitos novos irmãos de fé que chegaram a Jesus da mesma maneira que eu, e assim como eu, nunca teriam se interessado, nunca teriam tido apoio e sido incitados a encontrar uma congregação e lá descobrir o Amor que existe em Deus, e o espírito fraternal dos irmãos, se não tivessem sido tocadom por meios “alternativos”, pouco convencionais para aqueles que estão presos na tradição e no “religiosismo”, como é o caso do rock gospel.

    -No meio onde vivia, a palavra do Senhor nunca teria chegado a mim se não fosse pelo rock evangélico.-

    Sinceramente, os “crentes” das minhas vizinhanças NUNCA se achegaram a mim com amor e carinho; nunca me trouxeram a palavra, pelo contrário, atravessavam a rua, com nojo ou medo da minha aparência. Ao invés do evangelho, eu via críticas, reprovação, nojo, medo… Já o inimigo satanás, me oferecia todos os prazeres do mundo através do seu engano e mentira.

    Mas quando eu menos esperava, quando tudo o que eu tinha recebido através do erro me foi tirado, quando comecei a ser cobrado pelo que tinha ganhado, a esperança chegou a mim, fui tirado da fome física e espiritual, fui tirado praticamente da rua, para uma casa, uma família e para a benção de Deus. Jesus me salvou… Me resgatou…
    Tenho certeza que não foi o inimigo, a serpente ou o enganador quem me afastou das drogas, das bebidas, cigarros e libertinagem em que eu vivia. Foi Deus, e com o uso da mensagem do evangelho, dentro das melodias do rock, pois esse era o meio mais rápido pelo qual eu poderia ser salvo. Jesus também usou as pessoas que eu menos esperava para alcançar meu coração, e eu, que odiava de morte os “crentes’, assim como o cristianismo e suas “correntes”, como eu chamava, hoje sou mais um arrependido do passado, buscando o amor de Deus e a vida eterna.

    Concordo que dentro da Igreja há de haver reverência e respeito ao Senhor dos Exércitos, pois lá estamos para O adorar. Porém estamos em uma guerra por almas, e como arma evangelística nas ruas, nos becos, nas noites, o rock tem sido arma muito eficaz.
    Também concordo que infelizmente o inimigo infiltra-se nestes meios para os desmoralizar, o que se torna bem mais fácil, levando-se em conta o pré conceito típico dos tradicionalistas, mas pergunto: Em qual meio o inimigo não tenta (e muitas vezes consegue!) infiltrar-se? Desde músicos consagrados e pastores famosos aos mais insignificantes aspectos da vida cristã… Assim como há erro e engano no rock gospel, há erros e enganos em todos os outros estilos, idéias e momentos da nossa compreensão falha, humana. Cabe a nós obviamente pedir a intervenção do Espírito Santo para mudar isso e nos mostrar o caminho correto.

    “Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.” – 1 Coríntios 9.22

    Repito que vejo o rock, o hip hop, o rap, o sertanejo, etc, como meios de evangelismo, para trazer pessoas como eu era aos pés do PAI, o problema é que muitos preferem criticar a compreender os meios de Deus, que como diz a Santa Palavra, “escreve certo por linhas tortas.” Creio que (e Jeová me perdoe caso eu faça mal juízo), muitas banda de rock (tão criticadas por seu ministério…), já levaram bem mais pessoas a segurar nas mãos de Jesus do que a grande maioria do cristãos que criticam meios diferentes de levar a mensagem da cruz adiante, mas não levantam do estupor de suas cadeiras cativas no templo para agir.

    Deus sacrificou seu próprio Filho em prol da humanidade, porquê não pode sacrificar a arrogância e preconceito de alguns para aumentar as almas de Seu Reino???

    “guiado pelo Espírito Santo
    nunca estou sozinho
    e eu sei aonde ir
    vou seguindo com o meu ideal
    já não temo o mal
    sou guerreiro de Deus”

    (Mensageiro, Metal Nobre)

    Deus nos abençoe a todos!

    1. Parabéns meu amigo, sou pastor e cantor de rock gospel, tenho uma banda que se chama Haaron e temos tocado inclusive na 93,3 Fm. Gostei muito da sua resposta, pois se existe uma coisa que menos precisamos no momento é de contestadores da propagação da Palavra de Deus e da forma que ela é divulgada. Reconheço também que em algumas questões o autor do texto se mostra profundo conhecedor dom movimento rock nas Igrejas Evangélicas e quando é dito que na realidade Rock é rock, eu concordo, mas temos que levar em consideração que o nome Gospel significa evangélico e se o Rock cantado pelos crentes tem raízes evangélicas, ele não deixa de ser Rock Gospel. Um abraço e fique na paz do Senhor!

  3. Só pra deixar bem claro, em nenhum momento no texto eu questionei a validade do rock como porta-voz, instrumento a ser usado na propagação do evangelho! Pelo contrário, sempre defendi isso, e não é à toa que cito no artigo diversas bandas que escuto e recomendo. Sou fã de rock e mais ainda do rock de conteúdo (principalmente quando esse conteúdo remete à mensagens cristãs, sendo elas de salvação, de amor ao próximo, de moral e ética…).

    Reler esse post me fez ter vontade de escrever mais sobre o assunto, que sempre acabo refinando ao ler artigos por aí a fora. Já até me inspirei e sei como vou abordar esse assunto novamente por aqui!

    Aguardem!

  4. olá

    Gostaria de saber quem foi o autor que criou o pictograma “roqueiro” que está publicado neste blogue, para um trabalho académico. E se fosse possivel saber mais sobre o autor e sobre o pictograma “roqueiro”

    obrigado
    aguardo alguma resposta
    continuação

    1. Andreia,

      essa imagem com os pitogramas foi conseguida num banco de imagens. Não havia referência de autor.

      Abraços.

  5. Kblo,
    gostei dessa matéria, não importa o estilo do rock e sim vc adorar o Senhor Jesus o único digno de louvor! valeu…

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