A Pílula Vermelha

por Anderson Felipe Butilheiro

Há muito tempo se diz do poder de influência que a televisão exerce no indivíduo. Talvez por ser um veículo de comunicação tão forte, tão presente nos lares e com uma credibilidade tão grande… Talvez por realmente ser manipulada para esse fim: formar opinião. No Brasil, sabemos da força da TV e de, principalmente, uma rede televisiva que exerce sua influência de forma dominante. A Rede Globo deixou de ser mais um canal, uma opção do telespectador e se tornou “inevitável”, presente em mais de 90% das casas com televisão no país. Passou a ser nosso principal agente de divulgação de notícias, de informações e de entretenimento. Mas até que ponto a Globo é capaz de influenciar? Até que ponto o telespectador é passivo ao que vê na maior rede de comunicação do Brasil?

A programação televisiva hoje está longe de ser a ideal. Os programas são voltados muito mais para a diversão do que para a informação do público. A maior parte das emissoras se preocupa em ganhar audiência e lucrar com isso. Poucas são as redes que seguem a idéia de educar, informar o cidadão. Mas a maior parte delas tem um alvo a alcançar. Não somente se superar e ser a melhor, mas superar a Globo, a maior das emissoras em audiência, renda e credibilidade.

A Rede Globo é, atualmente, a maior rede de comunicação do país. Com uma cadeia que une rádio, TV e impressos, ela chega a todo o país levando informação, entretenimento e apregoando uma ideologia que serve não só para difundir o estilo “Globo”, mas para manter a situação (status quo) do indivíduo que é seu “cliente”. Principalmente através da TV, a Globo tem a missão de continuar o trabalho de seu criador, Roberto Marinho, pai dos atuais diretores da rede. Roberto se foi, mas seu sistema continua: a manutenção do telespectador/cliente da emissora depende da fidelidade desse indivíduo ao que é vendido pela emissora. E, para isso, a Globo usa sua programação a fim de discipular, doutrinar.

Toda a programação da Globo é voltada para seu consumidor, mas não para educá-lo, informá-lo. A finalidade é entreter o telespectador fazendo-o pensar que está sendo informado, educado. O “cliente” tem a sensação de estar com suas necessidades sanadas. Na verdade, está sendo alienado através do que vê por pensar que todas as respostas estão ali, no telejornal da noite ou da novela das 6.

Jornal Nacional é, de longe, o telejornal mais visto pelos brasileiros. A audiência do horário é imbatível e a Globo domina há anos o “horário nobre” da televisão. A credibilidade do jornal é tão grande que por vezes associamos a versão passada ali com o verdadeiro fato. Esquecemos que a notícia nada mais é que uma versão, de várias. Que existem outros olhares, às vezes diferentes, que fazemos questão de não notar. Pensamos: “A versão do Jornal Nacional é a oficial”. E sem perceber, caímos no jogo perigoso da manipulação que nem vemos acontecer. É exatamente aí que acontece a alienação.

O mesmo acontece em vários outros segmentos, não só o da informação. Ao escolher um entretenimento, por vezes preterimos outros canais e nos fixamos na Globo como se fosse a única opção de lazer. As novelas, grandes concentradoras de audiência do canal, são tão importantes na grade de programação que há tempos ocupam boa parte da mesma, inclusive no horário mais cobiçado da TV nacional. Mesmo que outras emissoras apresentem conteúdo de qualidade, boas produções, bons temas, o da emissora carioca sempre será mais visto.

Esse poder da Globo no cenário de hoje vem muito do poder político que a emissora tem desde as alianças formadas no passado. Essas alianças permitiram que a Globo se consolidasse no cenário televisivo. Roberto Marinho e seus descentes, atualmente na liderança da empresa, souberam aproveitar até mesmo as épocas mais conturbadas da política brasileira para se firmar, com uma posição política sempre favorável ao governo e, às vezes, escolhendo que governo seria esse. Durante todos esses anos da emissora, os acordos políticos mantiveram a Globo no ar, sendo a preferida do povo, do público.

A programação da Globo é escolhida criteriosamente, visando não só entreter ou informar, mas levar ao telespectador a visão “global” (leia-se como a visão da Globo) das coisas, dos temas. Até a abordagem que é feita pelos programas, tudo é analisado com cautela para chegar ao público de forma a convencer, influenciar. A Globo se posiciona frente aos assuntos mais diversos da sociedade, se diz imparcial, mas influencia a forma como seu público pensará e o que será discutido por ele. Isso ocorre principalmente através das novelas (as maiores concentradoras de audiência da TV) que retratam temas da sociedade como preconceito, aborto, homossexualidade e etc.

Talvez hoje o poder da emissora esteja ameaçado por dois motivos: a força que as concorrentes ganharam nos últimos anos, se tornando boas opções na TV brasileira e a força da Internet e de outros veículos de comunicação que descentralizaram o poder de influência da TV. Claro que frente ao alcance da Globo, esses fatores ainda são pequenos para mudar o cenário de uma forma geral. Mas mostram que o poder dela não é absoluto.

Principalmente pela Internet, a Globo tem sofrido com os ataques de internautas que já reconheceram o poder de influência da rede (e seus braços como a Editora Globo e a rádio CBN) e tentam “libertar” outros telespectadores mostrando a “realidade” por trás da emissora. Algo como o que acontece no filme Matrix (The Matrix, 1999), em que um grupo de humanos luta contra as máquinas num futuro em que elas dominaram o mundo e subjugaram a raça humana. No filme, todos vivem sob uma realidade virtual, dominados pela incapacidade de ver a realidade atual e saber que são alienados, ou seja, que não enxergam um mundo de verdade, mas uma imaginação coletiva criada num computador, chamada de “Matrix”.

Essa teoria baseada no filme Matrix foi amplamente divulgada pela Internet e comparada com a situação que vivemos hoje. Mas aqui podemos associar a “Matrix”, essa realidade que não é clara, ao mundo criado pela Globo, ao qual somos presos. E é necessário que nos desprendamos dessa ideologia, dessa doutrina ensinada desde Roberto Marinho: subjugar o telespectador e o manter alienado do que realmente acontece, pensando que a realidade é somente o que aparece na tela da TV. No filme, era necessário escolher entre tomar a pílula vermelha que levaria ao caminho da verdade ou a azul, que manteria a alienação. Hoje, cabe ao jornalista escolher que caminho seguir: encobrir a verdade e mascarar a informação como a Globo ou revelar ao mundo o que é real. Eu escolho a pílula vermelha.

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2 opiniões sobre “A Pílula Vermelha”

  1. Se esse texto fosse escrito nos anos 80 seria ainda mais definitivo para o momento da época. Hj a Globo não é tão hegemônica qto já foi e não só ela veicula as notícias de acordo com seu interesse, se lixando para o bem do público; a Record tem um projeto perigoso de expansão (inclusive copiando muita coisa da matriz global); nas pequenas e médias cidades os canais locais têm tb força ligados aos grupos políticos que comandam as localidades (não precisamos ir longe para ver isso…). Mas o texto é bom pois cita uma expressão que sintetiza o que a Globo ainda detém no país, o PODER DE INFLUÊNCIA; uma notícia só tem relevância de fato se for veiculada pela Globo; um exemplo esportivo: a Stock Car era uma categoria falida de automobilismo e só passou a ter sucesso e repercussão qdo transmitida (e financiada) pela Globo. As ações pirotécnicas da Polícia Federal só aparecem mesmo qdo cobertas pela Globo (inclusive com direito a repórter participando da operação, como no caso Paulo Maluf), entre outros exemplos.

  2. Concordo com o Alexandre, hoje não so a globo veicula informaçoes conforme seus interesses. A globo é alvo de invejosos que tentam atingi-la a todo custo a todo instante. Ela por anos adiquiriu credibilidade, que faz dela o que é hoje. Só se engana quem quer. São varias as emissoras de tv, jornais, revistas, radios, cabem as pessoas não se deixarem manipular. Ou alguem conhece algum veiculo de comunicação que não mistura informação com manipulação?

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