O primeiro dia

por Anderson Felipe Butilheiro
em 28-08-2007

Muita gente acha que o primeiro dia de aula é traumatizante para as crianças. Mas não me lembro de alguém falar sobre o primeiro dia de aula de um professor. Não o primeiro dia do ano, quando começa uma nova etapa ou no primeiro dia numa nova escola. Estou falando mesmo do primeiro dia na frente de uma classe, dando aula pra vários alunos e tendo que unir tudo aquilo que ele estudou sobre como dar aulas ao conteúdo que ele deve transmitir. Na última semana pude sentir eu mesmo o frio na barriga que precede esse momento frente a uma classe e tenho algo a dizer sobre essa experiência única.

Sábado, às sete e trinta da manhã, estava à porta de uma sala observando atentamente a apresentação que o coordenador de uma escola de informática da cidade fazia sobre o conteúdo que aqueles recém-matriculados alunos veriam durante todo o curso. Em seguida sou apresentado à turma como o seu instrutor. A sensação que sentia era de estar sendo jogado num país estrangeiro, só com as roupas do corpo, sem saber falar a língua local. Nunca havia ministrado uma aula sequer na minha vida. O olhar da turma parecia o de leões famintos, prontos para me devorar e minha única saída era correr. Mas estava ali para fazer o meu trabalho.

Ainda com as mãos tremendo, tomei posse de um marcador para quadros que me cederam pouco antes e estava no meu bolso. Escrevi no canto do quadro meu nome, com letras bem tremidas, virei de frente para a classe e me apresentei em meio a alguns gaguejos. Minha voz, já meio fraca, ficou mais fraca ainda, quase sumindo no ambiente, se misturando ao som do ar condicionado. Vozes na sala? Só a minha. E justamente esse silêncio era o que mais me amedrontava. Na minha mente, uma frase se repetia várias vezes: “Eu sei do que estou falando…”. Conhecer o conteúdo, eu realmente conhecia. Fui contratado justamente por isso. Mas a parte pedagógica era o grande problema. Como lidar com 15 pessoas diferentes ao mesmo tempo, cada uma com suas particularidades, níveis de conhecimento diferentes e problemas que extrapolam a sala de aula? Será que eu realmente estava preparado para tudo isso? Nesse momento refleti um pouco, enquanto os computadores eram ligados e todos observavam meu caminhar na sala. Engoli rapidamente o desespero e tentei me portar como um professor com anos de prática. Até porque, se em qualquer momento, a sala desconfiasse de minha inexperiência, seria bem pior.

Ao longo da uma hora e meia que se seguiu a aula correu bem. Mesmo com alguns pequenos imprevistos como falha das máquinas e outros detalhes irrelevantes. O mais curioso foi o que aconteceu no final da aula, quando me preparava para fazer uma breve chamada e dispensar os alunos. Alguns deles, que já haviam decorado meu nome com enorme facilidade, começaram a me chamar daqui e dali, tirando dúvidas, querendo mostrar o que haviam conseguido fazer, se importando com minha opinião sobre o trabalho que tiveram ao longo da aula. Uma nova sensação surgiu e eu me sentia agora um pouco responsável pela evolução do conhecimento daquela turma. Nada é mais motivador do que isso. Apesar de ter passado apenas 2 horas na companhia deles, aprendi muito mais do que teria aprendido em qualquer livro sobre como é estar num dos cargos mais importantes que se pode ter numa sociedade: o de professor, aquele que transmite conhecimento.

O ser humano tem uma capacidade incrível de aprender através de suas experiências muito mais rápido do que qualquer outro animal racional. Sem dúvida, essa experiência em marcou e será algo que carregarei por toda vida, por mais que tenha outros primeiros dias pela frente, estes sim à frente de turmas novas, em novos ambientes… Mas toda a preparação pela qual passei só foi válida no momento em que pisei naquela sala. E imagino que não deve ser diferente com os demais homens e mulheres que se colocam nessa posição de ensino. O primeiro dia é marcante e, sem dúvida, serve de base para todo o restante de nossas futuras aulas.

Uma opinião sobre “O primeiro dia”

  1. Já vivi essa sensação um tantão de vezes…
    A sensação é que milhares de borboletas voam dentro da barriga,haha!
    Com certeza,esse tipo de experiência trás muito crescimento. Muitas vezes,no papel de alunos,pensamos que somos os únicos beneficiados com o conhecimento,mas quando a gente assume o posto de professor,sem dúvida alguma aprendemos muito mais que os nossos alunos ^^

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