Fim do luto! Desabafo!

Eu me dei o direito de estar de luto durante alguns dias nos quais conversei com amigos distantes. Amigos esses que perderam parentes, pessoas próximas, amigos queridos em mais um trágico acidente. E não estaria aqui para falar do assunto se não fosse por um motivo especial: a vontade de protestar, levantar a voz contra um insulto aos nossos olhos que, por vezes, nem percebemos.

Não vou me prolongar nesse parágrafo. Só quero relembrar todos que lêem sobre qual acidente escrevo. Tenho certeza que na lembrança de cada um estão as imagens que a mídia joga a todo instante de fogo, fumaça e frieza. Depois da colisão fatal do vôo 3450 da TAM no Aeroporto de Congonhas, somente isso pode ser visto. O fogo das chamas de um avião em pedaços e um prédio perfurado por motivos ainda obscuros. Um troca-troca de acusações, de conjecturas dos possíveis motivos, acabou por transformar o fogo em fumaça, juntamente com a ação corajosa de bombeiros que lutaram para retirar de toda a retorcida estrutura, alguma alma viva. A fumaça logo passou e só restou a frieza dos homens que continuavam trabalhando ali, já sem esperanças de encontrar sobreviventes. Frieza da mídia que, como urubu – no sentido mais nojento possível – continuava a sobrevoar os escombros em busca de imagens que chocassem, de relatórios que prendessem milhares às telas e aos papéis. A Imprensa agiu como sempre e transformou tudo em um grande circo (tá bom, me prolonguei).

Uma semana se passou, os 7 dias de praxe foram respeitados. Mais alguns dias e ainda estavam lá os homens trabalhando e a imprensa. Outro incidente no mesmo local e novamente tudo vira uma grande notícia. Enquanto isso, nos seus lares, familiares choram a perda dos entes queridos. Pessoas sofrem dores que nem consigo imaginar. Despretensiosamente ligam a TV e são obrigados a suportar ainda mais dor ao rever imagens que não param. Repetidas, reprisadas, comentadas, analisadas. As cenas parecem estar num loop sem fim.

Entre uma notícia e outra (uma do PAN e outra da TAM, sem querer fazer um trocadilho desagradável) somos bombardeados com todo tipo de coisa. Propagandas que surgem do nada, querem nos vender algo e tentam provocar nossos sentidos. Num minuto um atleta sobe ao podium, no outro uma propaganda tenta nos convencer de que precisamos de algo mais em nossas vidas. Em seguida, mais uma cena nos faz lembrar do acidente e novamente surge um comercial para apagar da nossa mente as imagens trágicas. Uma tempestade de informações que se confunde na nossa mente. E a frieza parece tão grande que eles, do outro lado da tela, são capazes de rir poucos segundos depois de relatar que nem mesmo 50% dos corpos foram identificados.

Eu me pergunto se isso é reflexo da nossa sociedade que não se comove com o que presencia. Se tudo isso é produto de anos de afastamento que coloca cada vez mais os indivíduos longe uns dos outros. Se a pós-modernidade deixou de ser uma perspectiva pessimista e se tornou realidade nos nossos corações e mentes. A frieza que vemos ao nosso redor está também em nós? Se a resposta para essas perguntas for “sim”, não tenho idéia de que mundo nós estamos construindo. E tenho medo de como esse mundo será daqui alguns anos. Afinal, até quando suportaremos isso?

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